sexta-feira, março 30, 2007

Barba Azul - Parte IV - A explicação

Se o facto de publicar o conto do "Barba Azul" já era confuso para a maioria dos leitores, revelar que me chamam Barba Azul no IST deve ter sido a "gota de água".

- Porque é que algumas jovens [ainda por cima!] do IST me chamam Barba Azul?
- Porque é que publiquei este conto?
- Qual a relação entre este conto e o actual contexto sócio-económico?

Certo dia, algures em Dezembro, estava num café do IST quando apareceram a Paki e a Pipinha [blarg, raios de nomes!]. Estávamos em plena pré-época de exames pelo que, como sujeito estudioso que sou, deixei crescer uma pujante e viril barba. Associado a este facto, estava com um cascecol e com uma camisola azul-escura. Qual foi a primeira coisa que a Paki me diz?

"Pareces o Barba Azul!"

Na altura fiquei em estado de choque:

"Atão, mas... eu que não faço mal a ninguém!"

Ninguém ficou a perceber o que se passava porque na realidade são todos uns incultos. Dessa maneira comprometi-me a escrever a história no blog.

Quando me lembrei de escrever a história no blog, tencionava fazer um copy-paste de um qualquer site. Pensei que seria fácil encontrar o conto... mas não o encontrei... encontrei algo muito melhor... A SUBMISSÃO FEMININA NA SOCIEDADE PATRIARCAL - um mega texto com uma análise ao conto de Perrault, que contém esta magnífica passagem:

"No conto de Perrault conhecido como Barba Azul, apesar de hoje excluído das histórias infantis devido à violência e também por não apresentar crianças como personagens [...]"

Ora bem, a análise ao conto começa por classificar o conto por "violento" e aponta como falha grave não ter crianças pelo meio.

A análise continua, com algo que nunca me passaria pela cabeça;

"Em histórias infantis como O Gato de Botas, O Pequeno Polegar e Riquê do Topete, o papel desempenhado pelas mulheres era insignificante, ficando evidente a sujeição feminina aos caprichos e desígnios dos homens."

E a magnifica análise acaba com a cereja em cima do bolo:

"Outro bom exemplo seria a produção cinematográfica [...] Shrek 2 [...].

Em sua segunda versão, o ogre verde retorna às suas aventuras, mas desta vez casado com uma princesa chamada Fionda, “que por amor adotou a mesma forma do amado” (BOSCOV, 2004: 119). Embora este não seja o principal enfoque do filme, tal acontecimento mostra [...] a privação feminina de sua verdadeira forma física em relação ao homem, revelando deste modo que ainda que por amor, quem tem sempre que ceder é a mulher."

Gostaria de começar a minha análise dizendo que li todos os contos referidos [excepto o Riquê do Topete] em criança. Não considero que, de maneira alguma, isso tenha afectado a minha maneira de interpretar o papel da mulher na sociedade.

Para mim a igualdade entre sexos [e já agora, raças] foi sempre tão evidente que em miúdo a ideia de racismo e discriminação de sexos não me fazia sentido. Pode parecer muito inocente mas resulta de ver as coisas de uma maneira muito lógica.

Quando, em criança, lia estes e outros contos, limitava-me fazê-lo de uma maneira puramente lúdica. Jamais teria capacidade para fazer interpretações paralelas. Será que as crianças de hoje são mais inteligentes/sensíveis do que nós eramos no nosso tempo e por isso precisam de ser protegidas?

Se é verdade que estes contos espelham uma cultura e uma maneira de pensar muito próprias de uma certa época, os eventuais danos que possam surgir da sua leitura só podem ser imputados aos educadores.

A demonização destes contos revela a perversidade, não dos autores, mas das mentes que examinam cada promenor em busca do sacrilégio.

Onde é que se pretende chegar com isto? Protegem-se as crianças da violência do "Barba Azul" ao mesmo tempo que se permite a inocência e pureza de um Dragon Ball?

Não quero tornar o texto muito longo. Para concluir gostava de apelar à razoabilidade destes "educadores" zelosos. Será que uma série ou um filme mais violento não constitui um problema? Aos olhos destas mentes "puras" pelos vistos não, visto que toda e qualquer mensagem está declarada explicitamente. Mau mau é a opressão da mulher patente em lendas como a "Padeira de Aljubarrota". Lá está o estereótipo da mulher oprimida, obrigada a andar com uma pá de fazer pão até numa batalha! Vergonhoso! ... =P

Para concluir, digo-vos que este tema esteve a debate enquanto se tomava um café no IST. Sobre o proteccionismo exagerado a amiga Paki disse [e bem]:

"Com tanto proteccionismo, qualquer dia nem se fala de drogas aos filhos, para não se assustarem nem para ficarem com ideias erradas. Claro que com isto qualquer mãe arrisca-se a perguntar ao filho "então, como foi o teu dia de escola?" e a receber como resposta:

"Foi bom mãe! Hoje experimentei uma coisa nova muito boa!"

Claro que o amigo Kewne tinha que se sair com uma resposta ainda mais genial em relação ao mesmo tema:

"Pai, hoje fiz sexo pela primeira vez!"
"Ai sim filho?! Então senta-te aqui e conta-me lá como é que isso aconteceu..."
"Ai não posso pai, ainda me doi o cú!"

...

5 Comentários

At março 31, 2007 4:31 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Ena falaram de mim :D

Quanto ao assunto do post...É uma questão difícil de analisar devido à complexidade do fenómeno de socialização (isto dito assim até parece que sei mesmo do que estou a falar)... Mas a minha opinião é a de que hoje em dia se dá demasiada importância aos modelos existentes e se "varre" para baixo do tapete o facto de que o indivíduo é acima de tudo um ser racional...

Se uma criança ou uma pessoa imita de forma "cega" um modelo é porque a sua formação não a muniu da capacidade de discernir quais são de facto as mais ou menos valias do modelo...

Discordo também do argumento usado para apontar machismo ou submissão da mulher no conto... Pelo simples facto do conto explicitar (ou pelo menos nesta versão) que Fátima estava autorizada a dispor do inteiro conteúdo do castelo do exposo tendo como única condição imposta a de não invadir aquela divisão em particular... Foi portanto a ganância da mulher que provocou o dilema central do conto...

Gostava era de saber com o que é que o Barba Azul perfumava o castelo que mesmo com tanta fedelha morta nunca ninguém cheirou nada...

 
At março 31, 2007 12:42 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Muito bom!! :D Eu lembro-me da historia do Barba Azul mas não foi um dos contos que me marcou... por isso se calhar n é assim "tao violento" como o querem fazer :P

Agora... Gervas é um Barba Azul?? Sabes que n devias ter dito isso... vai ter consequencias :P :P

Beijos

 
At março 31, 2007 2:33 da tarde, Blogger Gervasio said...

Kewne,

[...]Pelo simples facto do conto explicitar (ou pelo menos nesta versão) que Fátima estava autorizada a dispor do inteiro conteúdo do castelo do exposo[...]

Para responder a esta tua questão [válida] deixo-te uma transcrição do conto, que por acaso tirei da análise que está no link:

Aqui tendes - disse ele – as chaves das duas grandes arrecadações; as da baixela de ouro e prata, que não é para servir todos os dias; mais estas dos meus cofres-fortes onde tenho o ouro e a prata/ a dos baús onde estão as predarias e, finalmente, a que abre todas as salas. Quanto a esta chavinha, é a chave do gabinete que fica ao fundo da grande galeria térrea; nesse pequeno gabinete proíbo-vos, porém de entrar, e proibo-vo-lo de tal modo que, se acaso o abrirdes, tudo podereis esperar da minha cólera (PERRAULT, 1997: 102).

Acho que é esclarecedor.


Sónia,

não provoques a minha ira, ok?? =P

 
At abril 03, 2007 9:31 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Desde já agradeço a menção ao meu nome neste conceituado blog.

Aproveito para dizer que esses pais que tanto se preocupam se esquecem que o intuito destes contos é ter uma lição moral. A lição deste conto é a mais simples possivel, a única que uma criança pensará: " O mal perde sempre.". Quanto muito ainda pudemos pensar que não se deve mentir, pois tudo virá à tona, mais cedo ou mais tarde.... Estes pais é que já se esqueceram da inocência da infância.

Venho propor um tema: história mais marcante da tua infância?

Beijos

 
At abril 03, 2007 10:21 da tarde, Blogger Gervasio said...

Paki!

Sim, a maioria das pessoas esquece-se que os contos tem uma função pedagógica.

Quanto ao teu tema, aceito-o e vou falar dele em breve. Não o faço já porque preciso de pensar um pouco.

 

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